ANÁLISE SUCINTA DE UM SONHO POÉTICO, SEGUNDO AS TEORIAS DE FREUD E JUNG.
O presente trabalho terá, por objetivo, a análise de um sonho real, expresso por mim, de forma poética, no meu primeiro livro de poesias, intitulado “Canção de mim mesmo”, constando de um soneto e um poema, situados distantes um do outro na estrutura do livro, mas que, na verdade, se completam.
Assim, abordarei, sucintamente, os principais aspectos envolvidos nas teorias do sonho, segundo Freud, Jung e a teoria cognitiva, situando, entretanto, as considerações, na teoria de Jung.
O sonho é geralmente definido como uma associação de imagens desconexas ou confusas, que se formam no espírito da pessoa, enquanto dorme.
A descoberta de fases de rápidos movimentos oculares durante o sono profundo, quando a pessoa que dormia, após o despertar provocado, era capaz de contar um sonho, permitiu uma abordagem diferente do fenômeno da atividade onírica. Esses períodos foram chamados de “sono paradoxal” ou “sono rápido”, porque correspondem a uma atividade intensa de numerosas estruturas cerebrais traduzida no eletroencefalograma por um traçado próximo ao do estado de vigília.
Do ponto de vista psicanalítico, o sonho é considerado a “principal via de acesso ao inconsciente”. Cada sonho apresenta um conteúdo manifesto (narrativa que o indivíduo faz de seu sonho) e um conteúdo latente (desejos inconscientes expressos pelo sonho). O conteúdo latente é deformado por um processo que Freud chama de censura; na ocasião do sono, no entanto, a censura se relaxa e opõe uma resistência mínima à intromissão do desejo reprimido no campo da consciência. Para Freud, “o sonho é a realização disfarçada de um desejo reprimido. O sonho é construído a partir de vários tipos de material: estímulos sensoriais vindos do mundo exterior, elementos marcantes originários do dia anterior (restos diurnos) e desejos inconscientes existentes desde a infância.
Para Jung, os sonhos carregam significados, embora nem sempre expressando desejos e esses sonhos podem ser interpretados pelo próprio sonhador. Jung acreditava que o melhor método para interpretação do sonho era o de correlação em série, ou seja, a observação dos sonhos, ao longo do tempo. Enquanto Freud afirmava que a interpretação dos sonhos somente poderia ser feita por um Psicólogo bem treinado, Jung afirmava que qualquer pessoa poderia realizar essa tarefa com os seus próprios sonhos.
A teoria cognitiva trabalha a mente do sonhador, especificando como a informação é organizada, na memória, quais as habilidades cognitivas que são apresentadas e quais as que faltam no sonho e como os sonhos apresentam os “schemas” da vida do sonhador, que ele cria, como criança, mas que não são usados quando acordado.Vejamos o relato poético do sonho:
No soneto intitulado “O sonho”, podemos perceber o arquétipo estabelecido na narrativa da ave que perdeu, em épocas distintas, duas de suas belíssimas plumas, tão belas e graciosas como o olhar meigo da amada. Essas plumas eram coloridas, representando o ambiente, o cenário onde os fatos se desenrolam, bem como os lindos olhos castanhos da amada. No início era uma amizade profunda e sincera. O tempo passou (representado pela segunda pluma) e o amor se despertou. A partir daí o poeta, utilizando-se da “persona”, passa a comparar o seu ideal de conquistar a amada, após encontrar a terceira pluma, pois, se ele já está feliz com as duas que encontrou, agora ele encontrará, com certeza, a verdadeira e eterna felicidade e o seu grande amor.
Mas, o tempo passa, e essa pluma não se desprende, ficando o poeta impaciente e no poema “Sonhos Estranhos”, o poeta passa a questionar sobre essa demora, imaginando que outra pessoa tenha encontrado a terceira pluma. Assim, ele entra no sonho da amada, discute sobre as razões e as desculpas que ela teria por não lhe revelar os seus próprios sonhos, que, com certeza, foram os mesmos do poeta. O poeta chega à conclusão de que, somente fazendo versos, jamais encontrará a terceira pluma e que os seus versos simplesmente faziam a amada sonhar novamente. Finalmente, o poeta diz à amada para ser alegre, viver a vida e sorrir, pois nos sonhos ele não se realiza, mas que encontra prazer e felicidade estando ao seu lado acordado, podendo dar todo o seu amor e carinho. Quanto ao mais, não passam de “sombras”, nada mais!...
Conforme sugere Jung, após realizar um questionamento sobre as imagens que aparecem nesse sonho, surgem muitas associações de idéias, tais como a ave enorme, com plumas coloridas, graciosas e brilhantes como o olhar da amada, vôo e porte majestosos, como o seu corpo bem formado, seus lindos cabelos (plumas) e o seu jeito de ser, e que se encontrava em estado de aperfeiçoamento (mudando pena), enquanto a musicalidade está presente na vida do poeta, que já estava muito feliz, e cantava, embora possuindo apenas duas plumas.
Fazendo-se a correlação de séries, presentes nos dois poemas, ampliando-se assim o sonho, nota-se que ele reflete muito da vida do poeta, porquanto é notório que ele sonha pouco ou não consegue se lembrar desses sonhos, o de que ele não gosta, e então, aconselha também à amada para parar de sonhar e viver o hoje, sorrindo e cantando, enquanto ainda existem plumas que poderiam assegurar um vôo eterno, com asa ritmada.
Prof. Walter Zavatário
Professor de Língua e Literatura Inglesa e Norte-Americana na UNEC;
Membro da Academia Taguatinguense de Letras- D.F.; Membro da Sociedade Brasileira de Paleontologia; Assessor de Imprensa da UNEC.
(Publicado no Jornal Díário de Caratinga-MG, 08/05/2007,p.10)

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